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Um ano de incertezas

2018 foi marcado por turbulências no cenário econômico e político, que resultaram em paralisação dos investimentos, diminuição do consumo e aumento das taxas de câmbio e carga tributária

14/01/2019

Muitos acontecimentos permearam o ano de 2018. Macroeconomicamente ainda sentimos os reflexos da crise econômica e dos escândalos de corrupção e indefinições de um ano eleitoral que geraram insegurança dos empresários em apostar em novos investimentos. Além das expectativas com as eleições que determinariam o novo governo, dividindo o país em um abismo ideológico, vivenciamos a greve dos caminhoneiros, que atingiu diversos setores e atividades. “Atravessamos um ano no qual não sabíamos qual rumo o país iria tomar após as eleições, tínhamos candidatos com propostas e prioridades completamente antagônicas e é muito difícil para o empresário se planejar e executar sem ter uma clara visão de quais serão as regras do jogo”, comenta Luiz Garcia, diretor da Lisec Sudamerica.

 

O resultado foi desemprego, culminando em baixo consumo do brasileiro, e taxas abusivas que influenciaram todos os setores da economia. Eventos como a Copa do Mundo e o recorde de feriados com emendas também não ajudaram neste processo de recuperação dos anos de crise. “O último ano foi um pouco atribulado em função do mercado internacional, onde as grandes potências interferem em nossa economia de forma indireta. Enquanto os americanos aumentam as taxas de importação, a China diminui a importação e desacelera a produção. Aliado a isso, temos os reflexos no câmbio e a ausência de crédito no mercado de construção civil”, avalia Dante Boccute Junior, gerente de Produtos da dormakaba.

 

Especificamente no setor vidreiro, a crise gerou consequências que acometeram principalmente a ponta da cadeia, ou seja, as vidraçarias e vidraceiros. A falta do vidro, material base do segmento, e seus sucessivos reajustes culminaram em desconfianças e incertezas. Outro acontecimento que abalou o segmento do vidro foi o fechamento da UBV, União Brasileira de Vidros), pois, além do baque de ver uma empresa tão estruturada não resistir à crise, alguns modelos de vidro fantasia foram extintos e agora o mercado conta apenas com a Saint Gobain Glass para a produção de vidros impressos.

 

Ainda assim, para José Antonio Passi, diretor da Divinal Vidros, 2018 foi um ano melhor que 2017. “Tivemos alinhamento de preços, faltas eventuais e pontuais em determinados produtos, mas nada que não pudesse ser contornado. A inadimplência foi crescente, infelizmente muitos sucumbiram, devido à situação econômica do País, que não contribuiu em nada para o ramo empresarial”. Sergio Mesquita, sócio-diretor da GDS, também vê com otimismo os desafios enfrentados, pois, diante de um cenário ruim, de baixo crescimento, os empresários tiveram que focar em redução de custo, melhorar os processos e otimizar os equipamentos, além de terem que criar e reinventar produtos que pudessem gerar melhores resultados. “O aumento de preço e a falta de vidro podem ter causado alguns transtornos, mas por outro lado serviram para valorizar o produto e readequar as margens para toda cadeia”.

 

Centro de Distribuição da Cebrace, em Simões Filho (BA)

 

Reajustes constantes

O preço do vidro sofreu quatro reajustes no ano de 2018, que resultaram em um acumulado de 45%, valor que o mercado tem tido dificuldades para absorver. “Os constantes aumentos de vidro geraram uma bagunça acentuada no mercado, chegando ao ponto de não sabermos a que preço vender nossos produtos. Porém,  acredito que os reajustes já estão sendo absorvidos pelo mercado e devemos ter uma estabilidade daqui para frente”, aponta Cirilo Paes, instrutor técnico da GlassPeças. “Creio que o preço deve ficar estável ao menos até o fim do próximo trimestre, devido à mudança de governo e preço do dólar controlado”, observa também Gabriel Rosa, gerente comercial da LuxsolGlass.

 

As justificativas são diversas, como a variação do dólar, alta da exportação, crise dos combustíveis, aumento da matéria-prima, da carga tributária, energia e mão de obra. Alexandre Marquez, da Estação do Vidro, ressalva que esses fatores não seriam suficientes para justificar e que os aumentos são desproporcionais às variações do câmbio. O profissional também reclama da falta de posicionamento das usinas, que apenas informam os reajustes através de comunicados, que foram emitidos ao longo do ano, com uma diferença média de três meses entre um e outro, e aumentos que variam em uma média de 10% em casa reajuste comunicado ao mercado. Vale ressaltar que os percentuais mencionados nos comunicados de cada empresa são semelhantes.

 

 

Para Gabriel Rosa, os aumentos são totalmente justificáveis. “Há algumas semanas atrás eu estava fazendo comparativos e percebi que hoje o preço pago por exemplo no vidro incolor 10mm temperado é inferior ao do 8mm temperado de oito anos atrás. O mercado precisa entender que aumento de preços não é somente matéria-prima, existem outros custos a serem considerados como energia elétrica, mão de obra, transporte, etc, e a partir desses fatores formularem seus preços”.

 

Sergio Koloszuk, diretor comercial da Alclean, também reforça que trata-se de recuperação de margens da indústria. “As condições internas permitem isso, apesar do sofrimento dos vidraceiros. No mercado internacional o vidro ainda está mais caro do que aqui, e com a aceleração da recuperação da economia, novos aumentos virão. Pelo menos este é meu palpite”.

 

“O preço do vidro no Brasil, em dólar, estava bem abaixo dos preços médios dos países desenvolvidos. Sem sombra de dúvidas o valor do vidro processado seria muito superior ao preço que é vendido hoje se os impostos fossem uniformes para todas as empresas processadoras de vidros. Caso exista alguma correção no sistema de equiparação da tributação nos diversos segmentos do vidro, o preço do material processado sofrerá um aumento superior a 30%, sem considerar nenhum aumento de fábrica”, sugere Passi.

 

Porém, Rosa sugere que “é impossível que todas as usinas e beneficiadores tenham aumentos de custos produtivos tão similares e igualitários ao ponto de aumentarem tabelas no mesmo período e percentuais tão similares, se não iguais. Isso é um verdadeiro abuso e desrespeito com toda a cadeia”. Cirilo Paes diz que, “enquanto o monopólio de quatro grandes usinas permanecer e este antidumping continuar, estamos fadados a ter que conviver com este tipo de política do setor”. “Parece que vivemos em pleno século XX, já que esses grupos parecem combinar os preços entre si e em função de lobby político não conseguimos ingressar no mercado global”, completa Fabio Miranda, diretor comercial da Makit.

 

“Existe uma pseudo proteção à indústria nacional, através de impostos de importação exagerados com alegação de dumping. Vários itens da construção têm preços globais, em função de alguns fatores nos encontramos privados de participar de importações diretas. É no mínimo estranho observarmos que um determinado produto tem seu preço mundial taxado em U$ 2,80 ( R$ 10,92) o quilo e no Brasil temos U$ 5,30 (R$ 20,67), praticamente 100% a mais, sendo que a única alegação dos nossos grandes grupos para impedir a importação seja a prática de dumping. Se estamos falando de um preço praticado a nível mundial, não temos dumping, mas sim protecionismo por parte do Brasil”, avalia Miranda.

 

Falta de vidro

Apesar dos aumentos prejudicarem o crescimento das empresas, o que mais prejudicou o setor foi a falta do material, que consequentemente, pela lei da oferta e demanda, eleva ainda mais os preços. “Sem dúvida nenhuma foi a falta de vidros nosso maior entrave. Acredito que em 2019 este problema deverá ser superado, pois as empresas produtoras sabem planejar. A falta de vidros vai se resolver quando terminar o ciclo de aumentos”, opina Koloszuk.

 

Apesar do otimismo de alguns, há uma grande preocupação no setor. Alexandre Marquez diz que trabalha há mais de 17 anos no mercado vidreiro e é a primeira vez que passará um dezembro com medo de pegar pedidos para este ano ainda e ser surpreendido pela falta de vidro. Rosita da CB Esquadrias relata que está tendo dificuldade para adquirir alguns tipos de vidro, como o bronze laminado. “Está faltando vidro temperado bronze, temperado fumê, laminados coloridos. Falta das fábricas e o beneficiador não consegue abastecer o mercado. Não tem vidro, as usinas não estão produzindo. Volta e meio recebo informativos de várias têmperas avisando sobre as faltas e qual a produção prevista”.

 

Gabriel Rosa disse que a falta de vidro sempre ocorreu no segmento, mas de forma pontual em determinadas matérias-primas. “Nos últimos dois anos, com a recessão econômica e capacidade ociosa dos transformadores, não tem justificativa para tanta falta como a do vidro bronze que persiste a mais de um ano.

 

As usinas de vidro, de acordo com profissionais do mercado, não explicaram as motivações, o que estimulou o surgimento de algumas especulações. A Vidro Impresso buscou um posicionamento das fabricantes, que preferiram não se pronunciar. Apenas a Guardian informou que sofreu impactos da crise mas que estão investindo no aumento de sua capacidade produtiva. “Não temos medido esforços para otimizar constantemente seus processos e  nossas fábricas vêm produzindo em sua total capacidade, com altos níveis de produtividade, contando, inclusive, com investimentos recentes que demonstram acreditarmos em uma retomada gradual econômica e reforçam nosso total compromisso com o desenvolvimento da região”, disse Ricardo Knecht, gerente geral para a América Latina da Guardian.

 

“Neste ano, assim como a grande maioria das empresas de todos os segmentos, a Guardian também sentiu o impacto da crise econômica, como o aumento de custos e a greve dos caminhoneiros que paralisou o fornecimento de matérias-primas, mas atuou rapidamente para superar o problema e retomar as entregas, minimizando o impacto negativo”, revelou Knecht.

 

Umas das especulações do mercado é de que a falta de vidro foi ocasionada por as usinas de vidro estarem priorizando a exportação do produto em detrimento do abastecimento do mercado interno. “À princípio se falou muito em exportação, porém com os dados a que temos acesso verificou-se que não foi o caso, pois o crescimento que houve na exportação não deveria influir no mercado interno”, analisa Wagner Gerone.  

 

 

Outras motivações foram consideradas, como “a greve dos caminhoneiros que fez com que a produção ficasse prejudicada por alguns meses, a manutenção de alguns fornos e também a especulação de alguns distribuidores em comprarem em grandes quantidades para estarem estocados para o final do ano, e consequentemente conseguirem preços melhor antes de novos aumentos”, enumera Gerone.

 

Para Gabriel Rosa, um fator que está sendo decisivo para falta de todas as matérias primas de forma geral é o dumping. “A questão da falta de vidro, percebo que é estratégico, veja que a falta de vidro incolor permanece regular, pois é o vidro incolor que tem o dupping, mas os vidros coloridos, como no caso do bronze, não vemos este produto nacional há quanto tempo? As usinas têm um mercado garantido por muito tempo, não precisam se preocupar com a venda de vidros pelos próximos dois anos, sua produção já está vendida até lá, por isso esse monopólio vai continuar e temos que engolir aumentos sucessivos e a falta de vidro, infelizmente é uma questão política para justificar o aumento de preço”, afirma Cirilo Paes.

 

Prejuízo para os pequenos

Todos os outros setores de nosso país estão enfrentando adversidades econômicas, mas, neste cenário, as pequenas e médias empresas são as mais prejudicadas, pois os grandes grupos econômicos do setor da construção sempre têm suas margens preservadas, já que, de acordo com Fabio Miranda, via de regra, essas empresas são organizados em oligopólios.

 

“O mercado não está conseguindo absorver os aumentos, vejo que o grande problema está na base da cadeia, na ponta dos executores, pois os mesmos não estão repassando aumentos e reduzindo suas margens para manter preços de dez anos atrás. Por sua vez, muitos transformadores acabam sofrendo pressão dos executores e reduzindo suas margens, aumentando ainda mais a 'quebra de valor' do nosso produto”.Gabriel Rosa, gerente comercial da LuxsolGlass.

 

De acordo com Sergio Koloszuk, Diretor Comercial da Alclean, os aumentos seguidos também atrapalharam bastante as pequenas empresas, pois existem muitos orçamentos com ciclo longo. “O vidraceiro simplesmente não pode medir, pois depende do trabalho de outros profissionais, e neste caso quando vem um aumento é bem difícil repassar”.

 

Dificuldade para se planejar

Uma das maiores reclamações é que, geralmente, os aumentos são comunicados com pouca antecedência, o que está comprometendo o planejamento das empresas. “Se as fábricas tivessem no mínimo o posicionamento de alertar aumentos dois meses antes, o que ainda sim seria meio complexo trabalhar, teríamos ainda demanda de estoque. Uma vez o vidro subiu 17% e fomos comunicados na sexta que o preço aumentaria na segunda. Assim não há quem aguente, nem eu, pequena vidraçaria, nem a têmpera e a distribuidora”, conta Marques.

 

O profissional ainda destaca que no meio de uma obra ocorrem aumentos, situação complicado do cliente entender. “Eu tive quatro casos desses. O cliente fechou a obra, porém a casa estaria pronta em 60 dias, mas nesse período tivemos aumentos. Mesmo com nota fiscal e demais proteções, e ainda avisando o cliente, ele não quer saber se teve aumento”. “Temos trabalhos a médio longo prazo e temos também orçamentos para 60/90/120 dias, e a com a instabilidade de preços fica constrangedor na hora do fechamento. Estamos acompanhando tudo de forma atenta, porém sem muito planejamento futuro, pois a cada dia vem uma nova surpresa”, reclama.

 

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