Piromania à italiana

Piromania à italiana

Capa: Piromania à italiana

“Na maior parte, os mestres que  trabalham com vidro soprado  não nascem artistas. Nascem  piromaníacos.” A frase de Caleb  Simon define bem a forma como o artista californiano se relacionou a vida toda com a engenhosa técnica de esculpir no vidro. Filho de joalheiros e apaixonado pelo material desde a adolescência, Caleb se viu imerso no universo do artesanato ao longo de toda a infância.

 

Aos 16 anos já se aventurava nas primeiras experiências com a arte vidreira. “Quando fiz minha primeira peça, sabia que essa seria minha sina”, revela o soprador. Desde então, persegue sua arte com inabalável foco e devoção, o que lhe garantiu os recursos necessários para se tornar um mestre em seu ofício.

 

Os anos se passaram, e o fascínio pelo vidro só aumentou. Depois de aprimorar as primeiras técnicas na Rhode Island School of Design, onde se formou, ele partiu para Murano, na Itália, carregando na mochila, além de um parco vocabulário em italiano, o sonho de beber da fonte junto àqueles que dominam a arte do vidro soprado. Seu objetivo era tomar algumas lições com o renomado mestre e escultor vidreiro Pino Signoretto.

 

“Passei um mês tentando um estágio com ele e sendo ignorado”, lembra o artista. Enquanto esboçava seu trabalho e os passos que desejava trilhar com ele, Caleb persistiu e acabou garimpando sua oportunidade. Passou dois anos no Muranese Studio, aprendendo as artimanhas do versátil vidreiro italiano. “Foitempo sufi ciente para produzir uma enorme variedade de peças, de pequenas e delicadas taças a enormes esculturas”, conta Caleb.

 

A bagagem trazida da Itália acabou por determinar o estilo e a linguagem visual de todas as esculturas que viria a desenvolver depois, ao fundar seu próprio estúdio,em 1999. “Ao lado do mestre italiano fui estimulado a roubar com os olhos”, brinca o escultor. De fato, em cada peça criada por Caleb é possível identificar a marca de seu primeiro tutor, alem, é claro, de sua paixão desmedida pelo material que escolheu dominar. “O vidro tem uma transparência e uma fluidez que o torna único como base para esculpir. Sempre que inicio um trabalho tenho uma ideia na cabeça, mas acima de tudo aprendi a ser flexível para me adaptar às formas que o material sugere conforme se molda.”

 

 Sediado na Califórnia, o estúdio de Caleb, uma antiga oficina de funilaria automotiva, tornou-se realidade com ajuda de alguns amigos e a preciosa sociedade que estabeleceu com a também artista vidreira Carmen Salazar, com quem é casado. “Deparei-me com a arte do vidro já na faculdade”, lembra ela. “Hoje usamos as mais avançadas técnicas para explorar novas formas e reflexos em nossas peças”. Quando questionada sobre detalhes dessas técnicas, Carmen desconversa: “Isso é ‘top secret’”, brinca. “Tudo é uma questão de conhecer o material a fundo e saber como manipulá-lo.”Carmen sustenta a visão de que, embora exija técnica e precisão, o vidro, por ser um material dinâmico e imprevisível, requer flexibilidade por parte do artista. “Vidro é magia. Se deixarmos que ele próprio conduza as formas da peça, seremos constantemente surpreendidos pelo resultado final. Uma boa dose de experimentação é fundamental, e é exatamente esse improviso na hora da criação o que mais nos encanta.” No momento, a artista se diz particularmente interessada em explorar os reflexos e padrões criados por diferentes técnicas de manipulação. “A forma como o vidro brinca com a luz é incomparável”, diz ela.

 

 

 Com métodos que em tudo remetem à imersão no Muranese, o estúdio de Caleb usa ferramentas diversas – mas nenhum molde – e um sistema de produção em que cada peça é criada em conjunto com uma equipe de assistentes. Uma substância química denominada ‘herbium’ é adicionada ao vidro para conferir a claridade almejada. As técnicas de escultura e polimento vieram diretamente da Itália e foram implantadas pessoalmente por membros da equipe de Signoretto. Inspirado pela tradição vidreira escandinava, Caleb dá preferência às formas mais simples, explorando um design marcado por efeitos de gravidade e força centrífuga. “Ao unir essas duas abordagens na manipulação do vidro, encontrei minha verdadeira assinatura estética, que reflete tanto a influência italiana quanto o equilíbrio e contenção dos escandinavos”, diz Caleb. Sua obra ganhou notória visibilidade e é destaque em galerias de todo o mundo.