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Vantagens em dose dupla

Além do conforto associado à baixa transferência de calor, vidros low-e atuam como importante diferencial na redução do consumo de energia

17/08/2016

Apelidado de The Nautilus, o centro de shows e entretenimento Qingdao Oriental Movie, na China, é a maior construção em espiral do mundo, com 23 m de altura e uma área de 15 mil m². Idealizado pelo grupo WanDa, o projeto chama atenção por seu engenhoso design inspirado na vida marinha. 
A configuração dos vidros low-e da fachada é composta por temperados incolores de 8 + 12 + 8 mm, com SKN 174 e valor U de 1.8W/m2K, fornecidos pela Qingdao Rocky Technical Glass.

Muito usados no hemisfério norte, os vidros low-e apresentam crescimento contínuo no mercado nacional, diante dos crescentes custos energéticos. Eles trazem ao mercado brasileiro de construção bem mais que conforto e estética, na medida em que asseguram,  também, importante economia nos dois sistemas que mais consomem energia elétrica em edificações: climatização e iluminação. 

 

Com uma fina camada de óxido de prata em uma de suas faces, os vidros low-e, também conhecidos como vidros de baixa emissividade, têm como principal característica a baixa transferência de temperatura de um ambiente para outro, aumentando o isolamento térmico sem impedir a passagem da luz. Essa propriedade faz do low-e um vidro amplamente utilizado no mercado de construção em países de clima frio. Mas ele também tem conquistado espaço em regiões de clima quente, como o Brasil, por atender aos aspectos de sustentabilidade buscados para a conquista das certificações LEED, ACQUA, e Selo Procel Edificações, entre outras.

 

O custo da energia está alto e pode aumentar ainda mais. Segundo o Green Building Council Brasil, muitas edificações com certificação LEED que apresentaram o potencial de redução do consumo de energia entre 25% e 30% especificaram fachadas de vidro com aplicação do low-e. De acordo com o Balanço Energético Nacional, as edificações respondem por aproximadamente 50% do total de energia consumida no País. Dados do GBC registram 224 edificações certificadas LEED, 11 certificações pelo Selo Procel e 29 edificações Classe A no Programa Brasileiro de Etiquetagem

 

Low-e é a abreviação para ‘low emissivity’, que significa ‘baixa emissividade’, ou seja, baixa emissão da radiação térmica. Seu funcionamento está ligado às duas formas de propagação do calor: condução térmica e radiação. Emissividade é a propriedade que os materiais têm de transmitir a energia que recebem. A ela é atribuído um Fator U – um valor numérico que determina se ela é maior ou menor. Ou seja, sua capacidade de transferir calor por meio de condução. Um vidro comum tem emissividade de 0,89. Um low-e pode chegar a 0,03. “Uma emissividade mais baixa equivale a uma maior reflexão do calor interior e, portanto, reduz as perdas energéticas nos dias mais frios”, explica Frederico Fontana, consultor de fachadas da Arup. Já um vidro de emissividade mais alta terá mais capacidade de emitir energia ou, ainda, trocá-la com o ambiente externo.

 

Revestimentos de controle solar de baixa emissividade minimizam a quantidade de luz ultravioleta e infravermelha capaz de passar através do vidro, sem afetar negativamente a quantidade de luz visível transmitida. Eles também não influenciam a cor e a visibilidade do vidro de forma significativa. A explicação está na sua espessura: eles são microscopicamente finos - 500 vezes mais que um cabelo humano.

 

                                

 

 

 

Funcionando na prática

 

Em um país frio, um conjunto de vidro insulado formado por duas peças de vidro (portanto, 4 faces) recebe o low-e nas faces do vidro mais próximas do ambiente interno. O calor emitido pelo sol entrará no ambiente por meio de radiação. O ambiente, então, emitirá calor para fora, por condução. A baixa emissividade do low-e garantirá uma perda mínima de calor. Resultado: menos custos com calefação.

 

No Brasil e em países de clima quente, o low-e é muito usado em vidros de controle solar seletivos. Mas é importante não confundir a função de low-e com a função de alta seletividade. Às vezes as duas performances vão juntas, combinando controle solar com baixa emissividade. 
“Eles trazem benefícios de equilíbrio entre a entrada de luz e calor, com média reflexão, promovendo excelente ganho energético nos edifícios, redução no consumo para resfriamento dos ambientes, além do aspecto visual maravilhoso que o vidro apresenta”, destaca a arquiteta Claudia Mitne, diretora de Marketing e Produtos da Glassec Viracon. O gerente de produto Lamartiny Gomes, da fabricante de vidros Guardian, concorda que a grande preferência pelo low-e em países de clima quente se explica pela combinação entre estética e alta performance energética.

 

O low-e também pode ser laminado, quando dois vidros monolíticos (incolor ou coloridos) são unidos por uma ou várias capas de PVB (polivinil butiral). “É comum a utilização de capas de controle solar, mais ou menos seletivas, na face interna do vidro, o que pode levar ao equívoco de imaginar que a aplicação combinada do low-e na mesma face seria eficiente”, esclarece Fontana, da Arup, lembrando que a película low-e exige o contato direto com o ar para desempenhar seus efeitos de redução da emissividade.O engenheiro de aplicação Wagner Bernardes Domingues, da Cebrace, acrescenta que, quando utilizado com os vidros laminados, o low-e “desaparece”, permanecendo a propriedade de proteção solar e controle de luz. “Desta forma, os vidros são adaptados às necessidades do nosso clima tropical”, justifica Domingues. 

 

No Brasil, os vidros low-e são mais demandados pelo segmento corporativo, por apresentarem custos que muitas vezes o segmento residencial não comporta. O vidro low-e de controle solar apresenta refletividade externa entre 8% e 10% e transmissão luminosa entre 70% e 80%. Além de fachadas e coberturas de shoppings, a tecnologia também é aplicada em janelas, divisórias, painéis e até em tetos solares de automóveis.
Apesar de o low-e ainda ser mais usado em edifícios que buscam selos ambientais e melhora na eficiência das fachadas, a análise positiva do seu custo de implantação versus custo de operação tem levado o mercado a considerar sua aplicação como uma medida economicamente significativa a longo prazo.

 

 

                                       

 

 

Tipos de low-e e como são feitos

 

A fabricação dos vidros low-e pode ocorrer por duas vias. A primeira é pelo processo pirolítico (ou hard-coat/revestimento duro), também conhecido como processo on-line. Nele, uma camada de óxido metálico é pulverizada continuamente sobre o vidro durante o processo de fabricação float. Dependendo do fabricante, é comum o uso de óxido de zinco e óxido de estanho. A outra forma de produção do vidro low-e é por meio do processo soft coat, também chamado de off-line. Ele ocorre depois da fabricação do vidro. Colocada em uma câmara hermeticamente fechada, a peça recebe o óxido por meio de pulverização catódita, que consiste no bombeamento de uma superfície cerâmica ou metálica com íons. O vidro baixo-emissivo Planitherm, da Cebrace, é produzido por esse método, utilizado tanto na indústria de refrigeração comercial como na de construção.

 

O Planitherm tem aparência incolor, podendo ser temperado e sempre aplicado como vidro laminado e duplo, em fachadas, janelas e coberturas. 
Já a Guardian, com sua família SunGuard, trabalha somente com os coatings a vácuo, em duas famílias: a Solar HD (alta durabilidade), que privilegia a estética com boa performance, e a família HP (High Performance), com aparência neutra, azul, prata e cobreada. Recentemente, o vidro Sunguard High Performance AG 43 on Clear foi escolhido pela MRV Engenharia para a construção da fachada da sua nova sede, em Belo Horizonte/MG. 

 

                                 

 

 

 

                                  

 
 
 
Cuidados no beneficiamento

 

Quanto à forma, o vidro low-e pode ser recortado, curvado, insulado (tornado duplo com duas lâminas de low-e) e furado. Praticamente todos podem ser beneficiados em todos os processos: laminação, têmpera, tratamento térmico, insulamento e serigrafia. Neste último, as peças de low-e podem ser serigrafadas por meio de tampografia, rolo, jato de tinta ou mesmo silk-screen.Os vidros low-e exigem atenção especial em todo o seu processo de beneficiamento. Entre os principais cuidados estão, por exemplo, local e tempo de armazenagem. Na PKO, os vidros chegam embalados de forma que a borda não tenha contato com o ar. Após abertas as embalagens, as peças são beneficiadas em até 72 horas. 

 

O óleo de corte deve ser de qualidade e a água para lavagem das peças deve ser desmineralizada e ter o pH controlado durante o processo. Existem também requisitos diferenciados, como o desbaste de borda, para evitar a oxidação do revestimento, e o tratamento térmico. Este último, segundo a Glassec, é vital para manter a qualidade ótica do produto final. Na laminação, o PVB não deve ficar em contato com a face do vidro que tem a camada metálica, pois pode causar mudanças no padrão de cor e redução das suas propriedades.

 

O beneficiamento do vidro insulado com low-e exige cuidados na hora da recomendável retirada dos 50mm de camada metalizada da peça, nas partes em que ele terá contato com a moldura, a fim de uma melhor colagem do butil e melhor vedação da câmara de ar. Na entrega, os cuidados são os mesmos dispensados ao vidro comum. Não devem ficar em contato com a umidade, devem ser empilhados em colares uniformes e separados por um papel intercalar para evitar o atrito entre as peças.

 

                                     

 

                                      

                                     

 

                                     

 

                                    
 

 

                                   

Vidros low-e também são eficazes na linha branca. Na foto, portas em vidro low-e sob balcão refrigerado isolam a temperatura, conservando os alimentos.
Máquina bilateral da Bottero, com tecnologia patenteada para beneficiamento de vidros low-e.

                                 

                                       

 


Máquinas para toda obra 

 

Para o diretor da Lisec Sudamérica, Luiz Garcia, a chegada dos vidros low-e ao mercado trouxe uma necessidade de adaptação das máquinas, de forma a não danificarem os revestimentos metálicos dos vidros durante o seu transporte, manuseio e processamento. Além disso, vários equipamentos, como as mesas de corte, ganharam funções adicionais, algumas até simultâneas, para aumentar a produtividade no desbaste das bordas metalizadas.
Além das mesas de corte automáticas, como a ESL-RS, a Lisec oferece também fornos de laminação (para PVB e EVA) dotados de sistema de convecção forçada de ar quente, possibilitando esquentar as chapas de vidros low-e para a produção de vidros laminados. Lançamento mais recente da empresa, a lavadora automática modelo VHW-D tem controle automático de velocidade das escovas, prevenindo riscos nas chapas de vidro, especialmente nas camadas metalizadas. Um sensor pode ser ainda integrado à lavadora, para detectar automaticamente qual lado do vidro é revestido.
A Bottero também está nesse mercado com suas mesas de corte, tanto para vidro monolítico como para vidro laminado. Segundo a fabricante, as máquinas bilaterais da empresa já trabalhavam os vidros low-e mais utilizados. Agora, com as novas bilaterais, a empresa acredita que não há mais limites. Seu mais recente lançamento é uma bilateral capaz, segundo a Bottero, de lapidar qualquer tipo de low-e, mesmo os mais delicados, que necessitam de cuidados especiais no manuseio. 

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