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Reflexos seguros

Vidros refletivos assumem protagonismo nos projetos de fachadas ao proporcionar controle da entrada de luz e calor

07/08/2016

Vidros refletivos assumem protagonismo nos projetos de fachadas ao proporcionar controle da entrada de luz e calor

Há poucos meses, o edifício londrino Walkie Talkie, em fase de construção, foi alvo de grande polêmica no meio arquitetônico. O prédio teria ocasionado um incêndio em um carro estacionado nas proximidades, em razão de sua fachada curva, revestida com vidros refletivos. O episódio levantou discussões sobre a segurança e aplicação correta dos vidros refletivos em fachadas. Em um levantamento junto às fontes especializadas do mercado, a reportagem de Vidro Impresso deparou com uma primeira questão: qual o termo correto a ser empregado para o material: espelhado, de controle ou proteção solar, seletivo, inteligente ou refletivo? Diversas são as nomenclaturas para esses vidros que propiciam privacidade e controlam a incidência de luz e calor. De acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a terminologia adequada seria “vidro revestido para controle solar”, tema regulamentado pela especificação NBR 16023:2011, que orienta sobre os requisitos gerais, estabelece as características e os métodos de ensaio. Um projeto em discussão é o 37:000.03-009, condições para manuseio e processamento, em que a comissão de estudos está avaliando o processo de insulamento do produto.

 

“A nomenclatura correta é vidro de controle solar, que exprime exatamente do que se trata: são vidros que, em razão de tratamentos aplicados em sua superfície, refletem bastante o calor e pouco a luz solar. O efeito é obtido por meio da película que reveste o vidro de um dos lados e possibilita obter efeitos diferentes conforme o tipo de radiação: luminosa, infravermelha, próxima e distante, que têm diferentes comprimentos de onda”, esclarece o arquiteto Paulo Celso Duarte, consultor técnico para fachadas e coberturas translúcidas ou transparentes. 

 

Como o mercado oferece vidros de controle solar que, embora considerados refletivos, não apresentam aspecto espelhado, o gerente de marketing da Cebrace, Carlos Henrique Mattar, expõe seu ponto de vista: “Todo vidro refletivo da Cebrace é de controle solar, mas nem todo vidro de controle solar é refletivo, pois existem ainda os chamados seletivos, que, embora sejam capazes de barrar o calor e controlar a luminosiadade, têm asecto neutro, ou seja, transparente”, diz Mattar. “O refletivo ficou conhecido como vidro espelhado porque os primeiros produtos desse segmento eram bastante refletivos, chegando a se tornar verdadeiros espelhos nas fachadas.” Já Alexandre Bonato, gerente técnico e comercial da Guardian, cita exemplos de vidros refletivos que não são de controle solar. “Existem vidros refletivos voltados para o mercado de decoração, como o Reflect Guardian e o Box Espelhado. A tecnologia é a mesma, mas o uso é baseado apenas em estética, sem necessidade de bloqueio de calor.”

 

Conforme informações da Associação Brasileira de Distribuidores e Processadores de Vidros Planos (Abravidro), os vidros refletivos são desenvolvidos com tecnologia que garante o controle eficiente da intensidade de luz e do calor transmitidos para os ambientes internos. Para a arquiteta Claudia Mitne, da GlassecViracon, a perspectiva é de crescimento da demanda nos segmentos comerciais e residenciais, tanto no envelopamento de fachadas e coberturas, como no revestimento em interiores. “Os vidros podem ser processados em praticamente todas as linhas: laminados, temperados, serigrafados e insulados, dependendo da performance desejada.”

 

Aliado do conforto ambiental nas edificações, o uso mais comum do material é em fachadas. “O conceito de construção com base em técnicas modernas do uso do vidro nas fachadas, junto com o emprego das chamadas técnicas passivas de climatização, potencializa a eficiência energética do edifício como um todo. Dentre essas técnicas passivas, vale salientar: a implantação, a orientação solar, o entorno, as condições climáticas locais, a geometria, a volumetria, a envoltória do edifício e a escolha dos materiais”, comenta Melca Claro, consultora técnica de vidros para arquitetura e fachada da AGC Brasil.

 

Etapas de produção

Existem diversos tipos de fabricação, aplicação e aspecto do vidro refletivo. “Para a construção civil, os mais conhecidos são os fabricados por processo on-line (pirolíticos) e off-line (vácuo), sendo que todos têm a função de reduzir a passagem de calor para dentro do ambiente e podem ter um aspecto mais espelhado ou menos”, explica o gerente da Cebrace Carlos Henrique Mattar. “O material ficou conhecido como vidro espelhado porque as primeiros versões eram bastante refletivas. Hoje o setor fala em vidros de controle solar, refletivos, espelhados, seletivos e de proteção solar. Neste caso, todos teriam a mesma função. Já os seletivos são os vidros neutros com proteção solar.”

 

A Cebrace optou pela nomenclatura de vidros de proteção solar após verificar, por meio de pesquisas com o consumidor final, que o termo remete de forma mais clara a verdadeira funcionalidade do vidro. “O processo tem início com a fabricação do vidro base, float incolor ou colorido, que posteriormente passa por metalização nos coaters”, esclarece Mattar. Em detalhes:

 

• No processo on-line, a metalização acontece durante fabricação, com vigas que depositam os metais à vácuo na mesma linha em que o vidro base está sendo produzido. 

• Já no off-line, as chapas com o vidro base são cortadas e transportadas para passar pelo coater, máquina que deposita os óxidos metálicos na superfície do vidro. Dentro do coater ocorre uma deposição a vácuo dos óxidos metálicos.

 

 Inovações do setor

A AGC do Brasil produz diversos tipos de vidros refletivos que podem ser aplicados no envidraçamento de fachadas de grande porte, como o recém-lançado Stopray Lamismart 24 (44.1 incolor), na dimensão de 2,40 m x 3,21 m, de aparência prateada, com transmissão luminosa de 24%, fator solar de 25%, que elimina a etapa de deletar as bordas (edge deletion) e pode ser temperado e laminado. Já a Cebrace tem o Reflecta Float, com aspecto espelhado, que bloqueia até 80% do calor quando aplicado de modo monolítico. Tem também a linha Cool Lite, que impede a entrada dos raios ultravioletas (UV) em até 99,6% quando aplicado laminado. A linha, inclui vidros de proteção solar e seletivos, cada um com desempenho e aspecto diferenciado. 

 

No quesito eficiência energética, a Guardian oferece as linhas SunGuard e ClimaGuard. A SunGuard, exclusiva para edifícios corporativos, é dividida em três séries: SuperNeutral, High Performance e Solar. A primeira série tem alta transmissão de luz e minimiza a entrada de calor solar; a segunda oferece uma variedade de aparências, combinando transmissão de luz de média a alta, com menor ganho de calor solar; e a terceira tem foco no bloqueio de calor. Já a linha ClimaGuard, voltada para fachadas residenciais, oferece quatro opções de produtos: ClimaGuard Silver, ClimaGuard Green, ClimaGuard Light e ClimaGuard PlusPlus, com diferentes desempenhos e cores. 

 

“Para ambos os segmentos, a Guardian tem duas novidades: o SNL37 e Reflect Guardian”, informa o gerente da empresa, Alexandre Bonato. “O SunGuard SNL 37 foi desenvolvido exclusivamente para o mercado nacional e tem como grande diferencial a obtenção de um fator solar de 0,29, com uma transmissão luminosa de 37%, quando laminado com um segundo vidro incolor”, esclarece. Já para o segmento de decoração e design, o Reflect Guardian confere alta reflexão e sofisticação aos espaços com sua coloração bronze. 

 

Caso Walkie Talkie

 

Recentemente, o mercado acompanhou a polêmica em torno do edifício 20 Fenchurch Street, em Londres, conhecido como Walkie Talkie, projetado pelo arquiteto uruguaio Rafael Viñoli, radicado nos EUA desde a década de 1970. O edifício, de 37 andares, estaria ocasionando problemas à vizinhança por conta da fachada curva revestida com vidros refletivos. Supostamente, o prédio estaria “derretendo” carros estacionados nas proximidades devido à incidência sobre eles dos raios solares refletidos pelo revestimento espelhado. Até o momento, nenhuma mudança drástica foi percebida no setor por conta desse episódio.
O consultor técnico Paulo Celso Duarte esclarece que foi um caso muito específico, em que a arquitetura criou uma fachada como um grande espelho côncavo, que concentrou os reflexos em uma área restrita. O especialista destaca que não houve “derretimento” de carros, mas sim do suporte do espelho de um deles e a deformação parcial da carroceria de outro, além de dados a estofamentos e tapetes. Segundo ele, há muitas pesquisas que garantem a segurança dessa aplicação, principalmente na Europa onde há uma grande preocupação ambiental. “Os cuidados a tomar consistem em evitar vidros excessivamente refletivos e verificar se existe alguma situação especial em que os reflexos possam causar danos.”

 

A especificadora técnica da PKO do Brasil, Rebeca Andrade, ratifica essa posição. “No formato arredondado, a energia do sol é refletida de vários ângulos para um ponto que concentra todo o calor, eventualmente criando situações incômodas”, comenta. “Há muitos estudos que avaliam desde a quantidade de calor e luz solar que entra para o ambiente e a que é refletida para o lado externo, incluindo cálculos de quantas horas por dia o sol incidirá sobre as diversas fachadas do prédio. Esses vidros têm o poder de reduzir custos com e ar condicionado e iluminação artificial e, se tais estudos forem feitos, não há riscos nem para os usuários, nem para a vizinhança”, finaliza.

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