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Quando o antigo vira novo

Vidro exerce papel chave em obras de retrofit, que visam revitalizar e modernizar os edifícios preservando sua arquitetura original

16/08/2016

Serpentine Sackler Gallery, concebido em 1805 como armazém militar, sintetizou o antigo e o novo por meio da revitalização da galeria The Magazine. Sob design de Zaha Hadid Architects, engenharia estrutural da Arup e envidraçamento da OAG Optima, a edificação reúne agora uma estrutura neoclássica de tijolos do século IX e outra do século XXI. Uma parede de vidro curva parte do solo até a viga do telhado, trazendo à obra luz e fluidez orgânica escultural. Vidros duplos laminados com baixo teor de ferro; painéis de fibra pintados com tinta spray; peles estruturais revestidas de fibra; estruturas em aço e tijolos originais dão ao espaço o tom transparente, quase efêmero, embora permanente e funcional.

 

 

Formada pelas palavras retro (do latim, mover-se para trás) e fit (em inglês, adaptação e ajuste), a expressão retrofit é usada para designar a reforma e revitalização de um empreendimento e suas instalações, preservando sua originalidade. A técnica contribui de forma significativa para a sua valorização, especialmente nos mercados imobiliários saturados e inflacionados das grandes metrópoles, à medida que insere na estrutura da edificação tecnologias que visam menos gastos e mais sustentabilidade. “Vidros laminados refletivos, por exemplo, proporcionam mais luminosidade, controlam o calor e não incomodam quem está no ambiente”, explica Amilcar Crosera, diretor da Kiir, empresa de recuperação de fachadas e fabricação de esquadrias, que alcança em suas obras finalizadas uma redução do consumo de energia elétrica em até 30%.

 

Shopping Barra (Salvador/BA) – o grande desafio do projeto de ampliação e retrofit da Caramelo foi potencializar espaço, conforto, segurança e acessibilidade, com o mínimo de intervenção na arquitetura do final dos anos 80. Na fachada, vidro refletivo Cebrace Cool-lite KNT 155; marquises com vidro de controle solar SunGuard-Guardian Neutral 14; pilares revestidos com vidro laminado serigrafado; guarda-corpos e gradis em aço inox e vidro temperado laminado incolor

 

Tendências

 

Estética, originalidade e funcionalidade não são os únicos diferenciais das obras de retrofit. A busca das empresas por melhores custos-benefícios e por certificações Internacionais, como a LEED (Leadership in Energy & Environmental Design), que avalia o desempenho energético, e a LEED EBOM (Existing Buildings: Operations&Maintenance), que avalia as operações e manutenções de edifícios, trazem pelo menos duas certezas: a de que sustentabilidade continua no topo do setor da construção e que projetos ‘verdes’ de retrofit trazem maior economia de custos operacionais, comparados a novos projetos, chegando a ser até um terço menores.

 

Nesse cenário, o vidro tornou-se protagonista em diferentes aplicações, como coberturas, fachadas, sacadas, guarda-corpos, portas, janelas, divisórias, vitrines, pisos etc. “A tendência tem sido substituir vidros comuns e outros materiais de revestimento defasados por vidros transformados, de mais alta performance, como os temperados, insulados e de controle solar”, explica Antonio Caramelo, presidente e arquiteto na Caramelo Arquitetos Associados.

 

Um estudo recente do World Green Building Council aponta que construções verdes melhoram a saúde, o bem-estar e a produtividade dos funcionários nas empresas. Conforto térmico, ruído, acústica e visão da área externa foram considerados elementos de influência direta. Nesse sentido, o vidro também representa um papel transformador na melhoria da qualidade de vida.

 

SGG Aramado da Saint-Gobain Glass incorpora tela metálica em sua massa, sendo um dos vidros mais procurados da empresa para obras de retrofit. Aplicado em guarda-corpos e coberturas, o vidro atende a NBR 7199 no quesito segurança

 

Condomínio Quitandinha (Santo André / SP), antes e depois. A intervenção da Strugal Aluminium substituiu as antigas esquadrias de ferro por uma fachada unitizada, com vidro laminado refletivo e ACM, trazendo à edificação modernidade e conforto térmico

 

O vidro no retrofit ‘verde’

 

Hoje em dia, diante do aumento no custo energético, não é mais possível fechar os olhos para a construção de fachadas sustentáveis em projetos de revitalização – das mais simples, que filtram os raios UV, às mais sofisticadas, que recebem placas de vidros fotovoltaicos, que captam energia solar, ainda pouco usadas no Brasil. Controlados por normas de desempenho, quesitos de sustentabilidade e segurança são prioritários.

Porém, para seguir em frente, as empresas terão que cumprir com mais rigor as normas vigentes com foco na elevação do padrão de desempenho das atividades em retrofit. Sejam elas a ABNT NBR 15575, NBR 7199 e/ou aquelas adotadas pelo LEED para edificações novas e retrofit: a ASHRAE 90.1-2010 e a nova versão LEED V4, que veio ainda mais restritiva e passou a usar a ASHRAE 90.2.

 

E na hora de especificar? Segundo Fabio Kabata, consultor técnico da fabricante de vidros de segurança Fanavid, uma boa especificação dependerá da convergência entre arquitetos, consultores e fornecedores na busca da melhor solução para o projeto. “Antigamente, na hora de especificar, questionavam-se muito os quesitos limpeza e manutenção, mas hoje, temos vidros autolimpantes, resultado da nanotecnologia”, conta a arquiteta Maíra Macedo, coordenadora de relações institucionais e governamentais do GBC Brasil.

 

Evolução

 

É notável o avanço do vidro nesse segmento, impulsionado pela criatividade e ousadia dos projetos arquitetônicos na substituição de materiais obsoletos. Um consenso entre empresas e especificadores é que as maiores contribuições do vidro na preservação do patrimônio arquitetônico estão na redução da entrada de calor, a melhoria acústica, a maximização da iluminação e da ventilação naturais e o conforto visual.

 

São inúmeras as estratégias que usam o vidro para aperfeiçoamento das obras de recuperação arquitetônica. Uma delas é a fachada ventilada, considerada um excelente redutor da carga térmica, por meio da qual forma-se um colchão de ar sob os vidros, reduzindo significativamente o consumo de energia. As fachadas envidraçadas e cortinas de vidro são recursos excelentes para captação da iluminação natural. A utilização de vidro-duplo e vidros de baixa emissividade (low-e) e o uso de películas térmicas especiais são outros recursos comumente empregados.

 

Para o diretor da processadora Conlumi, Claudio Passi, o avanço da tecnologia e dos players nacionais na oferta de vidros laminados gerou uma maior difusão de informações sobre vidros especiais. A consultora técnica da Cebrace, Danila Ferrari, acrescenta que “a maior demanda tem sido pelos vidros seletivos, que permitem maior passagem de luz e barram o calor, em fachadas, sistemas de fachada cortina e silicone glazing”.

 

 

 
Revitalizado e valorizado

 

Acima, projeto de revitalização do Edifício Banco Central (Fortaleza/CE). Além da revitalização da antiga fachada, o maior desafio deste projeto era agregar valor econômico e sustentável à construção da década de 70. A aplicação do Sistema Retrofit® da Kiir na fachada gerou significativa redução de 50% no consumo de energia elétrica pelo ar condicionado. A revitalização trouxe ainda melhorias significativas na acústica do prédio, reduzindo os ruídos externos, trazendo conforto para todos. No processo, os vidros comuns foram substituídos por laminados de 8 mm, refletivos, prata PN 114, com instalação de revestimento ACM 4 mm silver e pintura Kaynar. Nas empenas de concreto foram aplicados 4333 m2 de Granito Branco Ceará, instalados com inserts metálicos em aço Inox 304. 

 

A tecnologia Retrofit Avançado patenteada da Kiir modernizou a fachada do Edifício Panorama Paulista com vidros de alta eficiência, coom fator solar de 34% (os vidros comuns absorvem cerca de 83% do calor), proporcionando 13% em economia de energia, sem sobrecarregar o sistema de ar condicionado. O sistema de fachada adotado foi o Glazing Stick / Linha Atlanta, da Belmetal. Os vidros também foram revestidos com película reflexiva, diminuindo assim a entrada de calor e luminosidade, gerando mais conforto

 

 
Vidros e esquadrias em harmonia

 

Um dos sistemas mais utilizados em obras de retrofit é o stick, que consiste na instalação de ancoragens nas vigas, seguida pela instalação de colunas e travessas e, por fim, a fixação dos quadros com vidros – fixos ou com sistema de abertura maxim-ar (a partir de um eixo horizontal, folha a folha). “O sistema unitizado também pode ser utilizado”, explica o diretor técnico da Tecnofeal, Marlon Archas Bezerra, que acredita que o dueto esquadrias e vidro deve ser utilizado onde houver necessidade de recuperação total da fachada e de desempenho térmico, acústico e de estanqueidade.

 

Apesar da pouca demanda no Brasil, em razão da diversidade climática e do alto custo da tecnologia, a utilização de perfis de corte térmico tem crescido nos últimos dois anos. Eles ainda costumam ser importados ou fornecidos por especialistas, como a Atenua Som, que tem linha própria do produto, ou a Strugal Aluminium, consultoria espanhola que também opera no Brasil com foco em retrofit. Segundo Maurício Alves, diretor da empresa, os perfis de corte térmico, junto com vidros insulados, têm gerado economia de até 50% com ar condicionado, sendo bastante solicitados por obras que almejam certificação LEED. Outras empresas, como a Kiir, oferecem soluções em retrofit que incluem vedação contra infiltrações de chuva, redução de ruídos em 10 db, execução da obra sem a necessidade de desocupação do prédio, além de possibilitar a valorização do imóvel em até 12% e economia de até 65% no valor da obra em relação à substituição de fachada.

 

A nova cobertura da área externa do Poupatempo Lapa (São Paulo/SP), revitalizada pela Conlumi, ganhou em beleza e durabilidade contra intempéries. Os vidros utilizados na composição foram os laminados e temperados de 18 mm, no sistema Glazing incolor

 

O projeto de retrofit da Universidade de Amsterdã foi a vencedora geral do AJ Retrofit Awards 2014, de Londres. Ele também foi o melhor na categoria Inovação Internacional

 

Para solucionar os problemas de degradação da fachada, acústica ruim e difícil manutenção, o Hospital Paulistano recebeu da Tecnofeal uma combinação de esquadrias entrevãos Feal 90, com vidros insulados, persianas internas e revestimento Feal Bond Ventilado em painéis de ACM

 

Laminação e têmpera em alta

 

Quanto ao tipo de beneficiamento do vidro para obras de revitalização, a diferença, de acordo com a arquiteta e especificadora técnica da PKO, Rebeca Andrade, reside no tipo de desempenho que se quer obter, conforme o projeto e a localização. Porém, segundo ela, há uma demanda crescente por laminação e têmpera. “As antigas edificações não incluíam vidros de segurança e proteção, exigidos agora por norma e com fiscalização rigorosa.

Mais ainda na laminação, porque projetos de retrofit costumam prever revitalização de fachada com aplicação de peles de vidro, que também demandam utilização do vidro laminado”, ressalta a especificadora. “Já os vidros insulados e insulado-laminados entram como um tipo de beneficiamento muito procurado nos projetos que incluem maior conforto acústico, por seu desempenho de atenuação”.

Utilizados para fechamento de vãos ou para revestimento de alvenaria, vigas e pilares, os vidros, nesse tipo de obra, também podem esconder acabamentos ou estruturas indesejadas, minimizando o uso de pinturas ou revestimentos que demandam mais manutenção. “Por serem refletivos, acabam desempenhando essa outra função”, explica Rebeca.

 

Outra demanda é quando o vidro precisa ser utilizado sem o apoio de perfis, como em algumas obras históricas que permitem certa intervenção arquitetônica com o mínimo de interferência no projeto original. Nestes casos, a tecnologia mais utilizada tem sido o vidro temperado-laminado extra claro com película de polivinil butiral (PVB) ou resina ionomérica, que chega a ser 100 vezes mais rígida que o PVB, de modo a possibilitar panos de vidro maiores, com o mínimo de perfis de sustentação, mantendo o máximo possível da estética original do local”.

 

Centro Cultural Banco do Brasil (Belo Horizonte/MG). O desafio da PKO nesta obra de revitalização era dar proteção contra chuva, vento e iluminação natural ao pátio aberto da edificação de 1930, mantendo o conforto térmico e acústico. A solução para a cobertura foi o vidro insulado-laminado refletivo, prata. A aplicação gerou isolamento acústico e reduziu um pouco a luminosidade, com a reflexão da energia solar sobre o pátio, a fim de evitar ofuscamento visual e um ‘efeito estufa

 

 

Catedral de Brasília - Os vidros externos originais, incolores e temperados, deixavam passar muito calor, e os vitrais internos, produzidos artesanalmente pela técnica do sopro e sem espessura uniforme, aumentava muito a temperatura no interior da catedral. A contração e expansão dos vidros causava quebras espontâneas das peças. A solução encontrada pela Fanavid foi substituir os vidros externos por vidros low-e laminados SKN 154 da Cebrace, de aparência neutra, a fim de não interferir na estética do projeto original

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