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Papo Direto

O vidro como solução

Lucien Belmonte

05/08/2016

Entrevista com Lucien Belmonte - Abividro

Fundada em abril de 1962, a Abividro – Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro reúne as quinze empresas instaladas no país que atuam na base industrial vidreira, abastecendo os mercados da construção civil, linha doméstica, embalagens, indústrias automobilística, moveleira, de vidros técnicos, vidros especiais, perfumaria e farmacêutica. Desde que assumiu a superintendência da entidade, em agosto de 2000, o executivo Lucien Belmonte acompanhou de perto todas as transformações que se desenharam na indústria vidreira nacional, participando ativamente do processo. 

 

Tendo como foco central de seu trabalho a defesa dos interesses da indústria vidreira, Belmonte destaca o papel da Abividro como entidade empenhada no aprimoramento técnico do segmento, em estimular o uso do vidro e em sistematizar informações de todos os setores da cadeia produtiva. Em entrevista a Vidro Impresso, Belmonte compartilha suas apostas para os próximos anos, enfatiza que a demanda é sempre o motor do crescimento e aponta o vidro como sinônimo de “solução”. 

 

Qual o principal foco da Abividro hoje? A entidade está mais voltada para o vidro plano ou para o vidro oco?


O foco principal da Abividro é a defesa dos interesses da indústria. Temos um denominador comum, que é a produção do vidro quente, e as frentes de atuação para vidro plano e oco são similares. Temas como defesa comercial, promoção de um determinado tipo de vidro ou outros interesses são projetos específicos, tratados em conjunto pelos associados interessados no tema.

 

Qual o aspecto mais importante de seu trabalho à frente da entidade?


A seriedade e profundidade com que tratamos os interesses do setor. O empenho e o conhecimento técnico com que nos envolvemos em temas como o uso de gás natural e a política nacional de resíduos sólidos traz para a entidade reconhecimento e destaque nos fóruns onde esses assuntos são tratados.

 

O Brasil assiste ao ingresso de dois importantes players na base de sua indústria vidreira. Como isso deve impactar sobre o trabalho da ABIVIDRO? 


Nada muda no nosso trabalho. O foco de nossa atuação continua o mesmo, com as mesmas frentes de discussão, como o custo de energia e outros aspectos importantes para a produção do vidro. Os temas tratados são transversais, de interesse de toda a indústria. Acreditamos que a chegada dessas novas fábricas trará importantes benefícios para todos os elos da cadeia, e os impactos na dinâmica do setor só podem ser positivos. O maior beneficiado é o consumidor, que passa a ter mais dois fortes fornecedores locais.

 

Empresas ligadas à cadeia vidreira, de um modo geral, se mostram apreensivas com um cenário de possível retração econômica no Brasil. Como avalia o cenário atual do segmento vidreiro no País? 


Apostamos em um panorama de crescimento mais moderado, mas ainda consistente. Embora seja um momento de certa desaceleração, em que a economia parece ter perdido um pouco o fôlego, em longo prazo o Brasil tem apresentado um crescimento sólido, que se reflete em todos os segmentos da economia. A construção civil, em especial, mostra-se especialmente aquecida. 

 

Quais as principais barreiras para o pleno desenvolvimento da indústria vidreira no País?


Não são propriamente barreiras, mas há fatores que poderiam auxiliar no desenvolvimento da indústria vidreira. Primeiro seria a fiscalização e o cumprimento efetivo das normas técnicas da ABNT no tocante aos vidros planos de segurança. Depois, a universalização da certificação de edificações pelo nível de eficiência energética, situação em que a aplicação de vidros de controle solar seria intensificada. Por último, a implementação de mecanismos que minimizassem as importações de vidros com preços de dumping.

 

Quais os impactos da massificação da entrada de vidro chinês sobre a produção nacional? De que forma as empresas podem driblar prejuízos, e que iniciativas devem ser tomadas para redução desse impacto?


A indústria não tem receio de competição correta, com o devido pagamento de impostos e dos princípios de legalidade. Não interferimos quando as importações seguem os padrões regulamentares de comércio. Mas quando são dampeadas, ou excessivamente flexíveis do ponto de vista legal, aí sim nos sentimos do dever de nos manifestar. Países como China e México vivem uma realidade complicada, com desequilíbrio brutal em suas balanças comerciais. A China apresenta um excesso de capacidade instalada e destina de forma massiva sua produção a outros mercados, às vezes burlando a tributação. O que motiva ações fortes junto ao governo são os sonegadores e os fraudadores. A estes nós combateremos incansavelmente. 

 

Como caminha o processo aberto pela ABIVIDRO para averiguar a existência de dumping nas exportações de vidros float da China e do México para o Brasil?


É um processo técnico, que vai discutir números da indústria internacional e local. O dumping é uma prática comercial que consiste em vender em outros países mercadorias ou serviços por preços abaixo de seu valor, para prejudicar os concorrentes locais. As medidas antidumping têm como objetivo neutralizar os efeitos danosos à indústria nacional causados pelas importações objeto de dumping.

 

Pesquisas recentes divulgadas pela ABRAVIDRO apontam que o consumo per capita de vidro no Brasil ainda é muito baixo em relação a outros países. A que se deve esse quadro e como revertê-lo?


A melhoria desse quadro só pode acontecer com um trabalho contínuo, envolvendo todos os elos da cadeia e com a divulgação dos atributos e das possibilidades que o vidro oferece. Uma das frentes da Abividro é a difusão dos benefícios do vidro para o consumidor e para o meio ambiente.

 

As mesmas pesquisas revelam que a capacidade produtiva da indústria doméstica de vidros planos tem aumentado de forma importante, levando a uma estimativa de crescimento de 128% em apenas seis anos. Como manter esse ritmo?


A demanda é sempre o motor para o crescimento. Acreditamos que num horizonte próximo teremos de vender mais serviços e priorizar a orientação adequada ao cliente. É importante que se invista mais em solução do que em produto.

 

Acredita que o País corre o risco de se confrontar com uma oferta excedente de vidros planos nos próximos anos?


Acreditamos que o crescimento do vidro do país é sustentável no longo prazo. A situação verificada em países como a China, por exemplo, cujo excedente de produção obriga as empresas a despejarem enormes volumes em outros mercados, está bem longe de se repetir no Brasil. 

 

Como avalia a evolução do setor vidreiro nos últimos anos?


Tenho visto o setor evoluir muito ao longo desses anos em que estou à frente da Abividro. Produtos vêm se sofisticando, a oferta vem aumentando, e temos um mercado, formado por transformadores e distribuidores, que exige muito das fábricas. Tem sido um jogo de ganha-ganha importante em toda a cadeia do vidro.

 

De que forma o vidro pode ser aplicado de forma mais ampla e versátil do que é hoje?


Costumo dizer que o vidro é sempre a solução. Podemos resolver muitos problemas com o uso adequado do material. Se precisamos de silêncio, vidro duplo; se precisamos economizar energia, vidros de controle solar; se precisamos gerar energia, placas solares.

 

Pesquisas apontam que, a cada 4 minutos, um estudo sobre vidros é desenvolvido no mundo. Qual a importância de compartilhar pesquisas com o setor, difundir descobertas e novas tecnologias?


A ciência dos materiais tem evoluído muito. E o vidro é uma destas quatro áreas de pesquisa. São inúmeras fronteiras, desde bio vidros até vidros compósitos que incorporam outras tecnologias. Vale a pena conferir o link “Day made of glass” no site da Abividro (www.abividro.org.br), em que se pode constatar a versatilidade do vidro e como ele pode estar presente em todo o nosso dia.


 
Por que os vidros fotovoltaicos ainda são pouco explorados no Brasil? 


Estamos à beira de uma crise energética e, naturalmente, devem ser implementadas legislações que estimulem, via tributação, a produção de energia renovável. 

 

Como estão as discussões sobre Política Nacional de Resíduos Sólidos, especificamente no caso dos vidros planos?


O esforço concentrado da Abividro é no resíduo de embalagem, que é alvo da legislação a entrar em vigor. O vidro plano também tem de tratar seus resíduos, mas não dentro do escopo dessa lei. Como é um resíduo comercial e industrial vai exigir envolvimento de toda a cadeia.

 

 

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