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Arquitetura e Vidro

Jogo de reflexos

Edifício residencial no centro de Berlim incorpora "dunas" de alumínio sobre fachada envidraçada

06/05/1958

A fachada escultural é marcada pelo jogo entre a flexibilidade e a ondulação das brises, e a planicidade e reflexão do vidro

Marcada por episódios tristes e sombrios, a capital da Alemanha parece conservar um rastro de dor em cada canto de suas ruas, construções e monumentos. É impossível pensar em Berlim sem lembrar as vítimas do Holocausto e da construção do muro que durante 28 anos dividiu a cidade em Berlim Oriental, controlada pelos soviéticos e capital da República Democrática Alemã (RDA), e Berlim Ocidental, zona de ocupação britânica, norte-americana e francesa. 
A história recente de Berlim ainda aflora na cultura do povo berlinense, que como poucos se mostrou capaz de se reerguer rapidamente, revigorando seus espaços urbanos sem perder as raízes históricas impressas em sua identidade. Hoje, a mistura do antigo com o novo, do conservador com o revolucionário, se faz presente o tempo todo pelas ruas da capital alemã, que está sempre se reinventando e tornando-se mais atraente e dinâmica. 

 

Acompanhando essa dinâmica, a arquitetura da cidade é também permeada por um contraste entre prédios contemporâneos e antigos, evidenciando as grandes transformações urbanísticas sofridas após a reunificação do país, com a restauração das construções históricas e a edificação de modernos complexos. No hall dessas modernas concepções, o edifício JOH3 é uma verdadeira joia da arquitetura moderna. Assinado pelo arquiteto Jürgen Mayer, do J. Mayer H. Architects, o prédio residencial de características únicas ergue-se em pleno centro de Berlim, no diversificado bairro do Mitte, e impressiona pela fachada que o reveste: integralmente envidraçado, ele é envolto em uma espécie de segunda pele, constituída por brises de alumínio, que permeiam a camada de vidro de forma orgânica e irregular, como dunas de areia abrindo espaço para lagos cristalinos que refletem a paisagem. 

 

O edifício estabelece uma estreita proximidade com a região em que está instalado, repleta de prédios monumentais dos séculos 18 e 19 que, vinte anos após a reunificação, misturam-se com uma arquitetura renovada e construções pré-fabricadas de influência altamente moderna. “Uma mescla de estilos e linguagens, assim se resume essa região da cidade”, comenta Mayer. “E o edifício foi inspirado por essa mistura. A ideia foi criar um contraste radical com a arquitetura típica de Berlim, estabelecer um contraponto, mesmo, por meio de uma fachada escultural marcada pelo jogo entre a flexibilidade e a ondulação das brises de alumínio e a planicidade e a reflexão do vidro.”

 

 

Se do lado de fora o resultado é uma escultura arquitetônica única, do lado de dentro os dois materiais também exercem importante papel. Juntos, diz o arquiteto, eles atuam como uma pele protetora, com dupla função em relação aos ambientes internos: garantir privacidade e simultaneamente iluminação natural em abundância. “Isso sem considerar outro aspecto fundamental: visibilidade quase sem obstruções do ambiente externo”, observa Mayer.

 

Os mais de 1,2 mil m² de vidro usados na fachada foram fabricados pela Saint-Gobain Glass. A escolha dos especificadores recaiu sobre o ClimaPlus Solar Control, vidro duplo de controle solar de alto desempenho fornecido pela parceira da fabricante na Alemanha, a Flachglaswerk Radeburg. Aliados às brises, os vidros proveem máximo isolamento térmico e perfeita proteção dos raios solares e transmissão luminosa. As chapas são compostas por camadas de SGG Cool-Lite SKN 154 na face externa e de Planitherm, vidro de baixa emissividade, na parte interna. “O Climaplus Solar Control é fabricado pelo processo Climalit, e as duas camadas de vidro estão separadas por um espaço hermeticamente selado e preenchido por gás de isolamento ou desidratado”, explica o engenheiro Artur Reynolds Brandão, diretor de comunicação da Saint-Gobain Glass Iberia. Os vidros Cool-Lite empregados no projeto oferecem 50% de transmissão luminosa e um valor U de 1, 1 W/m2K.

 

 

Formas orgânicas, curvas e arredondadas marcam o design da fachada. Internamente, os generosos espaços dos apartamentos residenciais têm vistas para o calmo e cuidadosamente projetado jardim situado na parte de trás do prédio. “Transições arejadas e espaçosas para o lado de fora criam uma experiência residencial única no meio da cidade, graças principalmente às alturas variáveis dos diferentes níveis do edifício, formando uma sugestiva sucessão de espaços”, descreve o autor do projeto. “Os diferentes planos e layouts de cada unidade oferecem diferentes opções de moradia, de coberturas a apartamentos clássicos e casas com jardins privados, e abre possibilidade para espaços comerciais no térreo”, acrescenta o arquiteto.

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