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Papo Direto

Engenheiro do Vidro

Engenheiro das lojas Aplle da entrevista exclusiva a Revista Vidro Impresso

28/07/2016

James O’Callaghan

Reconhecida autoridade no uso de vidros estruturais, o engenheiro britânico James O’Callaghan tornou-se mundialmente famoso por suas ousadas escadas, passarelas, fachadas e outros elementos envidraçados que são a marca das lojas da Apple nos quatro cantos do globo, de Tóquio, Sydney, Xangai e Hong Kong a Londres e Nova York. Ferrenho defensor do uso do vidro estrutural na arquitetura, de forma muito mais versátil e criativa do que hoje, o engenheiro liderou ambiciosos e premiados projetos em vidro, levando a Eckersley O’Callaghan (www.eckersleyocallaghan.com), empresa com sede em Londres e fi liais em Nova York, Paris e Xangai, da qual é um dos fundadores, ao patamar de uma das maiores especialistas mundiais em engenharia de fachadas estruturais. Frequentemente convidado a dar palestras e compartilhar sua rara experiência sobre as possibilidades estruturais do vidro com profi ssionais de toda a cadeia vidreira, O’Callaghan destaca, em entrevista exclusiva a Vidro Impresso, as tecnologias responsáveis por posicionar o vidro entre os materiais mais cobiçados da arquitetura moderna. E aponta os caminhos para tornar o vidro estrutural uma opção viável e acessível entre arquitetos e projetistas.

 

– O vidro arquitetônico evoluiu de forma muito rápida nos últimos anos. Qual considera a mais importante contribuição do material na arquitetura contemporânea?
O vidro apoia-se em suas propriedades únicas de transparência e longevidade. Nenhum outro material oferece ao arquiteto a mesma versatilidade e fl exibilidade, especialmente quando se deseja combinar luz e arquitetura em um projeto e fazer com que ele resista ao teste do tempo. Um dos princípios da arquitetura moderna é abraçar a luz. Por isso a importância do desenvolvimento contínuo do material para atender a esses objetivos.

 


– Quais as características do vidro que o tornam um material tão especial?
Transparência, longevidade, qualidade, refletividade e diversidade de aplicações.

– Diante da crescente complexidade dos envelopamentos de edifícios, qual tem sido o papel desempenhado pelas equipes de engenharia e arquitetura?
O desenvolvimento de fachadas é resultado de uma longa jornada de experiência, aliada a uma mudança de atitude em relação ao desempenho energético e a uma maior sofi sticação das tecnologias de fabricação e das ferramentas de design. À medida que as fachadas evoluem e precisam se adaptar a esses crescentes desafios, cresce a importância de especialistas em design de fachadas.


– O uso do vidro estrutural é uma tendência crescente na arquitetura. Quais as principais limitações a serem superadas para que esse material seja mais explorado?
Projetos em vidro estrutural são hoje altamente dependentes de uma experiência prévia no assunto, aliada a uma sólida compreensão, por parte dos profissionais envolvidos, do que de fato pode ser atingido com o vidro.
Tal experiência é tanto mais importante diante da falta de códigos e diretrizes internacionais sobre o tema. Felizmente essa realidade está mudando, e esperamos em breve ver códigos estabelecidos na Europa e nos EUA, contribuindo para a difusão do vidro como estrutura.

 

– De que forma a tecnologia do vidro estrutural disponível hoje favorece a criatividade dos arquitetos?
Quando explorado para expressar uma linguagem, seja em peles externas ou em aplicações internas, o vidro exerce um papel significativo na criatividade arquitetônica. Portanto, toda tecnologia desenvolvida para melhorar e ampliar suas aplicações é de fundamental importância para a criatividade e relevância do papel desempenhado pelo vidro. Por exemplo, usamos vidros de grandes dimensões em uma série de projetos nos últimos anos. Trata-se de uma tecnologia que contribuiu muito para esse desenvolvimento e hoje permite que áreas muito maiores de fachadas sejam cobertas sem juntas de silicone, aumentando a transparência e reduzindo conexões.


– Quais considera as mais avançadas tecnologias disponíveis no mercado mundial de vidros planos? Essas tecnologias têm sido devidamente aproveitadas?
tecnologias do vidro plano residem no seu processo de fabricação e no seu desempenho como revestimento. O primeiro contribui imensamente para a qualidade real do envelope de vidro, aliado às opções disponíveis para o projetista em relação a formato, tamanho e resistência da chapa. O segundo é também primordial, especialmente
diante da crescente atenção que vem sendo dada ao desempenho energético das edificações.


– De que forma o vidro pode ser aplicado de forma mais ampla e versátil do que é hoje?
Para que o vidro seja mais amplamente explorado em aplicações construtivas é necessário que a comunidade formada por arquitetos, projetistas e demais especificadores tenha uma compreensão maior sobre seu potencial. A indústria precisa desempenhar seu papel na divulgação de informações e pesquisas relativas ao desenvolvimento de produtos. Também é necessário que essa indústria desenvolva uma consultoria mais consistente em relação a vidros e fachadas, para que os arquitetos avaliem com mais clareza a potencialidade do material.


– Pesquisas apontam que, a cada 4 minutos, um estudo sobre vidros é desenvolvido no mundo. Qual a importância de compartilhar pesquisas, difundir descobertas e novas tecnologias?
Não é raro ver a indústria tratar como confidenciais algumas informações e experiências importantes que desenvolvem. Embora se entenda que isso seja necessário para que as empresas mantenham vantagem competitiva, é um obstáculo para o desenvolvimento de novos conceitos para os projetos. Informação e pesquisa formam a espinha dorsal da segurança, e sem segurança os projetos permanecem puramente teóricos.

 


– A arquitetura tende a formas geometricamente mais complexas. Que conselho daria a profissionais de arquitetura e engenharia para usar o vidro de forma mais ousada e criativa?
A tendência a formas complexas tem desafi ado a indústria do vidro, porque é evidente que o vidro em princípio é um produto plano, requerendo certo número de passos no pós-processamento para resultar em formas bi ou tridimensionais. Isto se torna ainda mais complicado pelo fato de que, se considerarmos aspectos como resistência e laminação, as tecnologias de hoje não são voltadas para formas complexas. Meu conselho para profissionais que desejam utilizar o vidro desse modo é ser criativo em suas concepções e simular essas formas geométricas por meio dos processos de curvas hoje disponíveis. E, assim, racionalizar formas tridimensionais em uma série de painéis curvos de duas dimensões – resolvendo parametricamente as superfícies com facetas ou curvas bidimensionais. Além disso, recomendo aos projetistas que tenham um olhar mais atento para alguns dos desenvolvimentos mais recentes em produtos de vidro, como o Gorilla Glass, da Corning Inc, que é excepcionalmente fino e resistente, o que lhe permite ser flexionado em formas tridimensionais muito precisas e, portanto, compatíveis com parte das propostas estéticas que vemos emergir nos escritórios de arquitetura.

 

 

– Quais as mais recentes inovações tecnológicas que fizeram do vidro um elemento propício para exercer função estrutural?
Há dois fatores que tornaram o uso do vidro possível em projetos estruturais. O primeiro deles é a possibilidade de reforçar o material por meio do calor, permitindo que ele absorva tensões locais muito mais elevadas nas áreas de conexão. A segunda, e provavelmente a mais importante, é o processo de laminação e o desenvolvimento das camadas intermediárias. Hoje já é possível laminar o vidro com materiais ionômeros muito duros, caso do Dupont SentryGlas, por exemplo, um polímero de alta resistência e desempenho que oferece segurança redobrada da composição em caso de o vidro falhar. Se não houver redundância nas aplicações do vidro estrutural, não há projeto viável.

 

– Entre o público leigo persistem dúvidas quanto à segurança do vidro com função estrutural. Concorda?
Estou certo de que ainda permanecem muitas dúvidas no que se refere à segurança do vidro em projetos estruturais. Isso porque o material não é tradicionalmente associado a esse tipo de aplicação. A própria transparência do vidro induz ao questionamento. O fato é que os projetos de estruturas envidraçadas são tão rigidamente analisados que tendem a exigir muito mais aprovações do que os feitos com qualquer outro material, como o aço ou o concreto. Eles não só recebem este alto grau de atenção ao serem concebidos, como normalmente exigem testes rigorosos para validação do projeto proposto.

 

 

– Como foi o processo de criação e desenvolvimento das Apple stores?
Nós tivemos a sorte de trabalhar com a Apple pelos últimos dez anos no desenvolvimento de estruturas de vidros para escadas e passarelas, assim como em ousadas fachadas de vidro.
A criatividade da Apple contagia os parceiros que ela escolhe, e isso ajuda a converter as ideias em realidade. Eles sempre nos deram apoio para o desenvolvimento de conceitos propostos por nós e nós trabalhamos duro para concretizar cada um dos conceitos sugeridos por eles.

 

– Como se deu a integração entre arquitetura e engenharia nesses projetos?
A engenharia é a validação da arquitetura. Uma não existe sem a outra. Portanto, é fundamental que colaborem estreitamente para desenvolver o projeto. Isso é particularmente importante quando a arquitetura se expressa por meio de uma estrutura de vidro. Tivemos sorte de trabalhar com alguns dos melhores arquitetos do mundo, todos com extrema criatividade e ousadia. Nosso esforço para tornar suas ideias em realidade foi a chave de nosso sucesso.

 


– Qual foi o projeto mais desafiador com que se deparou no mundo do vidro?
Olhando para trás, o projeto mais desafiador foi o primeiro. Pode não ter sido o mais complexo em sua proposta arquitetônica, mas foi um grande desafio do ponto de vista da validação do que se pode fazer com o vidro na arquitetura e na engenharia. Concretizado o primeiro projeto, cresce a confiança para desenvolver outros mais ousados.

 


– Entre projetos de que participou, qual considera ter chegado aos limites do possível no uso estrutural do vidro?
Não há um projeto específico nesse aspecto, já que cada passo adiante se baseia em passos anteriores. O importante é o avanço por etapas. Por exemplo, estudamos com os parceiros da Seele GmbH a laminação do vidro em combinação com metais com que costuma ser aplicado, a fim de obter uma superfície ininterrupta, como alternativa aos sistemas convencionais de encaixe. Da mesma forma, temos acompanhado o conceito de laminação em larga escala, também com a Seele e outros parceiros na China, como a Beijing North Glass. Em muitos casos, foram as demandas dos projetos que levaram ao desenvolvimento dessas tecnologias.


– Que cuidados especiais são requeridos na aplicação do vidro estrutural?
Atenção aos detalhes, experiência, cuidados análises técnicas, domínio dos materiais empregados e um abordagem pragmática do projeto estrutural.

– Entre os projetos de que participou, qual o seu predileto?
O da Apple Glass Cube na 5.a Avenida, Nova York. É uma oportunidade única de expor a associação de tecnologia com vidro estrutural. Tivemos o privilégio de trabalhar no projeto duas vezes. Inicialmente em 2006, aplicando as mais recentes tecnologias em vidro disponíveis na época. E novamente em 2011, na remodelação do projeto, quando pudemos expor toda a inovação desenvolvida desde então.

 


– Quais os aspectos principais dessa inovação e que vantagens acrescentaram ao projeto?
A mais recente encarnação do projeto usou vidros de largas dimensões, para reduzir de 90 para 15 o número de painéis, o que por sua vez reduziu signifi cativamente a estrutura de sustentação. Isso aumentou dramaticamente a transparência do edifício, objetivo básico do design original. Paralelamente, foram usadas técnicas inovadoras de laminação do vidro, que favorecem o efeito de superfície ininterrupta e a aparência monolítica da obra.


– Quais as mais recentes pesquisas desenvolvidas por sua equipe e o que elas sugerem?
Temos pesquisado, por exemplo, as propriedades do ‘Gorilla Glass’, da Corning Inc, com vistas a suas aplicações na arquitetura. O material, que combina espessura mínima e alta resistência, foi desenvolvido inicialmente para a indústria eletrônica, telefones celulares e monitores. A combinação de sua espessura mínima e resistência, comparada ao vidro tradicional, desde logo sugeriu a importância de seu uso na arquitetura e construção. Paralelamente, sua resistência, em nível inatingível pelo vidro convencional, pode levar a aplicações únicas em termos de segurança, em substituição aos pesados painéis de vidro espesso ou plástico. A leveza do Gorilla Glass, combinada com sua elevada resistência mecânica, pode também propiciar soluções únicas para coberturas envidraçadas. Finalmente, a combinação de resistência e baixa espessura pode resultar uma flexibilidade propícia para conferir formas diferenciadas a fachadas e peles de vidro de edifícios, assim como a superfícies transparentes.

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